Qual é a função da notícia? Segundo os manuais e o senso comum é informar o público sobre assuntos relevantes, focar o que é de interesse público, prestar serviço através de fatos e não de especulações: o jornalista testemunha a notícia, não a cria. Ele não é agente, é observador. Nisto, cito a máxima “quando o jornalista vira notícia, algo saiu errado”. Até aí, mais do mesmo – vamos a algo novo.

Eu, para ser mais específico, acredito que na última sexta-feira (29/08/2008) o jornal Folha de São Paulo, na verdade a versão online, ignorou o já citado conceito tão básico em nome da auto-promoção e de, sinceramente, algo que eu não sei bem o que é. Reproduzo abaixo parte da matéria:

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29/08/2008 – 02h30

Folha Online antecipa vitória em licitação de obra do metrô de São Paulo

RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online

O resultado da licitação para a construção da via permanente 2-Verde do Metrô, obra de mais de R$ 200 milhões, foi antecipado pela Folha Online oito horas antes da abertura dos envelopes, ontem, em São Paulo. O nome da vencedora e detalhes do processo foram ocultados em texto sobre a ópera “Salomé”, que entrou em cartaz ontem na Sala São Paulo.

A antecipação mostra que a concorrência pode ter sido direcionada, de forma a dar vitória ao consórcio liderado pela Camargo Corrêa. Procurada, a empresa se recusou a falar sobre o assunto.

Em destaque, as palavras cifradas sobre o resultado da licitação, que só seria revelado oito horas depois

A obra em questão trata da ampliação da linha 2-Verde no trecho de Alto do Ipiranga até Vila Prudente. Hoje essa linha vai da Vila Madalena até o Alto do Ipiranga. Essa expansão é uma das bandeiras políticas da gestão José Serra (PSDB).

As empresas excluídas da licitação irão à Justiça contestar o resultado. Pelo conteúdo dos envelopes abertos ontem, por volta das 9h, o consórcio Camargo Corrêa/Queiroz Galvão apresentou a “melhor” proposta. O consórcio pediu R$ 219,7 milhões para executar a obra –12% acima dos R$ 196 milhões previstos pelo Metrô. A segunda colocada foi a Andrade Gutierrez, que pediu R$ 222,1 milhões. A terceira colocada foi a OAS (R$ 226 milhões).

Para excluir quatro das oito empresas que disputavam a licitação, o Metrô usou um parecer técnico da Ieme Brasil, empresa contratada como projetista da 2-Verde. Ela prestou serviço à Camargo Corrêa. O procedimento é contestado administrativa e judicialmente pelas perdedoras (Galvão/Engevix; Iesa Consbem/Serveng; Carioca/Convap/Sultepa; Tejofran/Somafel).

Pela Lei das Licitações (nº 8.666), a Ieme não poderia participar nem “direta” nem “indiretamente” do processo.

O Metrô informou a exclusão das quatro empresas no “Diário Oficial” do Estado da última terça. Para fundamentar essa decisão, em vez de produzir um parecer próprio, a direção do Metrô usou o que a Ieme fez para a Camargo Corrêa. Ou seja, o Metrô usou o argumento de uma das concorrentes para desclassificar as demais. Para especialistas, o processo foi “contaminado”.

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“A antecipação mostra que a concorrência pode ter sido direcionada” – O que seria a notícia fica depois do lead e mesmo assim é mal-explorado. Mesmo que o resultado da licitação tenha sido direcionado, foi uma postura correta especular sobre isso? Quem são os especialistas citados e por que não há citações que dêem credibilidade ao que foi exposto? Entenda, não estou aqui como advogado da Camargo Corrêa, mas como uma pessoa que tenta ter um olhar crítico do aspecto jornalístico da matéria citada.

“Viu, eu não disse?” – É a frase que me vem à mente quando eu penso em um motivo sensato para esta ‘ocultação’ de furo em um texto de ópera e o foco estranho da matéria. Dada a situação, o veículo não tinha como afirmar com a propriedade devida o favorecimento da Camargo Corrêa sobre as obras da linha verde do metrô, logo apelou para um recurso ‘alternativo’ na sua antecipação: se o resultado não fosse o esperado, a matéria (mal escrita) sobre Richard Strauss simplesmente seria vista como um texto comum. A Folha, logicamente, não colocaria como manchete de destaque no seu portal uma afirmação equivocada, como fez na situação contrária:

E… A imprensa vira notícia. A previsão bem sucedida virou destaque. O foco aqui não foi a licitação, o metrô, qualquer método duvidoso para a decisão, a CC ou as empresas desfavorecidas. Foi a ‘brincadeira’ da FOLHA, veículo respeitado de jornalismo, um dos maiores jornais do país. O jornal virou notícia. Algo deu errado. Autopromoção? Arrogância? Ambos? Sinceramente, foi um artifício, digamos, medíocre não importando qual seja a resposta.

Se a intenção é fazer um jornalismo sério e contestador, então que o façam assim. Conteste, mas com base em investigações, provas e fontes confiáveis. Coloque as cartas na mesa e se realmente tem em mãos algo digno de nota, que se encaixe no que é chamado de ‘bom jornalismo’, divulgue-o. A informação sólida dentro dos princípios éticos não precisa ser oculta, codificada ou escondida para ser revelada segundo conveniência e interesses próprios.

Interesse público. O destino das obras do metrô é de interesse público. O que a Folha teve a coragem de colocar em letras grandes na sua página principal não. Os questionamentos do resultado foram apresentados de forma completamente equivocada. Editoriais e colunas existem para uma veiculação mais livre de opiniões, não há nenhuma necessidade de usar de artifícios tão questionáveis e depois vir dizer “olha o que eu fiz!”.

  • http://www.cocoloko.kit.blog.br Fernando Império

    Ao ler o post lembrei do ‘Notícia em Foco’ de ontem (01/09), programa de rádio da CBN às 19h, quando Alberto Dines, do Observatório da Imprensa e Carlos Eduardo Lins da Silva, Ombusdman da própria Folha de S. Paulo concluíram que o jornalista de hoje não apura mais a denúncia, simplesmente a publica e espera ver no que dá. Neste caso, parece-me que a Folha tinha alguma informação a respeito, mas não a certeza, mesmo assim acertou e aí publicou um outro texto para dizer que antecipou a informação oficial. Pois se ela tinha informação checada e apurada por que fazer essa brincadeira de MAU GOSTO? Caso errasse, a Folha publicaria que fez esse jogo de mensagem subliminar? Não haverá outras por aí? =O

    Como leitor da Folha não costumo ver isso acontecer com freqüência e por isso o espanto. A promoção dela foi desnecessária e espero ser a única, caso contrário, vamos ter que ler os textos sempre desconfiados se não existe mais do que aquilo que está evidente.

  • thiagosurtado

    Simplesmente ridículo. O avesso de tudo aquilo que aprendemos. E, como você disse, a imprensa virou notícia. O fato em si – do possível privilégio das construtoras durante o processo de licitação – foi deixado em segundo plano para que a Folha destacasse o furo de reportagem. Eles pensaram exclusivamente como empresa e não como veículo jornalístico: se utilizaram de uma informação importante em uma brincadeira e depois se vangloriaram em cima disso, como se o mais importante fosse o furo dados pelo “jornalista”. Nessa história, a construtora ainda sai ganhando porque a polêmica ficou por conta da medida tomada pela Folha.

  • Bruno Chagas

    Comentário postado no Brasil Wiki!:

    08/09/2008 – Maria José Bove – Taquaritinga – SP
    Faz tempo que deixei de acreditar na FOLHA, que se juntou com a UOL (que está uma droga), e ambas se juntaram à RECORD (outra porcaria). Tudo em casa!
    Parabéns pela sua reportagem, apesar do meu comentário não ter muito a ver, mas aproveitei o espaço.

    http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=6937