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Estamos presenciando o conceito de “consumidor no poder” chegar à política? O protesto do dia 17 de junho marcou a maior manifestação dos últimos 20 anos e deixou claro que esta geração não é tão apática e inerte pela tecnologia quanto alguns poderiam pensar. Mas isso precisa ir além, não só com manifestações como também da nossa mentalidade e cultura diária. Já escrevi um pouco sobre isso ano passado, quando ocorreram as marchas contra a corrupção, que acredito terem sido o principal sintoma de que algo estava mudando no comportamento do cidadão brasileiro. Cidadão este que consegue expressar suas ideias e se organizar muito rapidamente.

Minhas dúvidas principais são se os representantes da tal geração Y, com acesso a um universo de informação, estão sabendo utilizar o recursos que têm para serem pessoas melhores no dia-a-dia, não sazonalmente e não porque viram no Facebook e resolveram aderir, sem mesmo sem entender. Se vão se informar sobre política e buscar as raízes do mal para serem assertivos em seus protestos e argumentos. Se sabem o que é o fascismo que tanto falam, se conhecem a história do próprio país ou se irão evoluir da mentalidade maniqueísta que parece predominante. Espero realmente que sim. Espero que todo este barulho seja do despertar à consciência.

Se levantou, então caminhe

O maior saldo de tudo precisa ser o fim da letargia. De pensar que melhorar o país está exclusivamente nas mãos dos políticos, porque não está. As pessoas podem apontar situações específicas de descaso e abandono e lutar para que mudem, trabalhando efetivamente para melhorias. E ações podem começar de um jeito simples, como a menina Isadora Faber faz com seu Diário de Classe, ou por meio de iniciativas mais complexas e abrangentes, como a movimentação popular que resultou na Lei Ficha Limpa. Se construir e levar à frente um projeto como este último parece complexo demais, você sempre pode propor leis para os vereadores da sua cidade.

Que tal procurar os movimentos que já existem para diversas causas e ver como você pode participar dos que concorda? Que tal usar as redes sociais para expor os problemas do seu bairro ou da sua cidade e verificar quem é o responsável por resolvê-los? E participar de audiências públicas? E ver qual vereador da sua cidade propõe bons projetos ou qual fica inventando datas comemorativas e nomes de ruas? Que tal ver quais os contatos deles que constam no site da Câmara da cidade e mandar e-mails ou ligar com dúvidas, sugestões e reivindicações? São coisas mais trabalhosas, exigem mais esforço tanto intelectual quanto de tempo, mas se de repente se tornassem hábitos populares, poderiam fazer toda a diferença.

A memória não pode ser curta

O que está acontecendo tem seu simbolismo e é um marco, independente da sua opinião, para a democracia nacional. Mas não pode ser só isso. Lembrar-se de como os governantes se posicionaram nesta e em outras situações, entendendo seus motivos, é algo que precisa ser levado ao longo prazo. Mais ainda: este espírito patriótico, que repentinamente tomou quem só postava gatinhos, autoajuda e memes no Facebook, não pode durar apenas uma semana ou um mês que seja.

O resultado disso tudo precisa ser visto nas urnas, na escolha dos representantes bem intencionados. São raros, eu sei, mas existem. Já vi pessoas que tentaram ingressar na política para lutar por melhoria de um aspecto de sua cidade, representar um nicho e inspirar seus filhos, mesmo que pareça romântico e utópico. Acontece que escolher melhor e impor qualidade ao grupo de pessoas que está no comando é algo fundamental para o Brasil que se pede nas ruas.

Sempre haverá idiotas

Um tema recorrente nos protestos é o contraste entre a violência e a postura pacífica da maioria das pessoas. E por maioria eu falo tanto manifestantes quanto policiais. O que ocorre é que sempre, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância, haverá os mal-intencionados, o que só querem tirar proveito, os que querem apenas arruaça pura e simples, os que desvirtuam o foco. É por isso que as causas e manifestações precisam cada vez mais bem estruturadas, para fazerem sentido e repelirem quem só avacalha e identifica-los.

Democracia e liberdade de expressão são vias de mão dupla. A imprensa pode e deve ter direito irrestrito a acompanhar as manifestações, independente de serem de um veículo que as pessoas gostem ou concordem. Afinal como falar que é contra censura enquanto tentam bloquear o trabalho legítimo dos outros, que estão registrando um movimento democrático. Não há outro adjetivo senão “idiota” para quem queima carro de emissora ou agride um repórter reconhecido por seu profissionalismo. Isso não tem nada a ver com manifestação.

Acreditar que não há pessoas tentando manipular os rumos disso tudo e transformar a população em massa de manobra é uma inocência tão grande quanto ter como verdade que tudo que está acontecendo se resume a isso. Com certeza tem gente com intenções não muito boas querendo incitar conflitos, puxar a sardinha para seu lado e desqualificar gestões de um modo que NÃO está em questão. Há autoridades corruptas e há pessoas corruptas no geral, dispostas a levar tudo para um lado que não é o que vai melhorar as coisas. A pergunta que fica é: vamos deixar?

Seja cidadão em tudo

2012_05_21_23_54_570Ser cidadão é muito mais do que sair na rua uma vez na vida e falar “pela primeira vez sinto orgulho de ser brasileiro”. Dizer isso deveria ser motivo de vergonha, pois nem você parou antes para melhorar o lugar onde vive e nem olhou ao redor pra perceber quem tenta fazer diferença, que o país sempre foi mais que futebol e bunda. Ser cidadão tem a ver com a postura que você adota na sua vida, com relação aos outros e com relação à sua cidade. É entender que há direitos e deveres. É entender o civismo. Como você quer ser cidadão quando dá dez reais para um guarda tomar cerveja e te aliviar de uma multa ou avisa da localização da blitz que devia surpreender bandidos?  E quando é omisso diante de um crime?

Você que fura filas, que não espera as pessoas saírem da composição para poder entrar no trem, que sai com um carro com funk a toda altura fazendo arruaça, que joga lixo no chão, que depreda um item público, que abandona animais na rua, que trata os outros que nem lixo, que vota em Tiriricas: você está colaborando para fazer da sua cidade um lugar pior, não importa quantas palavras de ordem poste no “Feice”. Repense as suas ações.

Uma coisa que precisamos deixar claro é que o problema do Brasil não são os políticos, mas os brasileiros. Esta é a triste verdade porque quem está no poder é tão cidadão quanto eu e você e, muitas vezes, age de forma omissa ou corrupta porque isso está enraizado na cultura geral do próprio país. A população sempre foi omissa. É o jeitinho brasileiro que está aí pra tudo, desde o dono de loja ao ministro.

…Enfim

Quero deixar claro que o que está escrito aqui não é a verdade absoluta, até porque isso não existe. É minha opinião, baseada no que sei e na postura que tento adotar para a vida como paulistano, com brasileiro e como ser humano. Acho que um grande problema é que as pessoas pensam muito menos em como ser indivíduos melhores e muito mais em como ser melhores que os outros ou impor sua mentalidade. Podemos ser mais do que isso. O Brasil só muda se a gente mudar e, se mudou, a gente só vai ver mesmo no cotidiano.

Acho que o principal caminho para chegar a um denominador comum de soluções e ampliar o horizonte das pessoas é trocando ideias. Portanto, os canais do Social & Mídia estão abertos para sugestões e opiniões: Comente e aproveite para acompanhar e interagir também no Facebook, no Twitter e no Google+.

  • Roberto Luiz

    É isso mesmo, Bruno. Temos que ser mais participativos e com sugestões. Não podemos também esquecer de outras questões, tais como: Maior idade penal, revisão/atualização/ mudança do código penal, que é mais velho que nossas mães.

  • clarindo

    Minhas considerações:

    – o que sustenta o movimento é: “a inflação”, que está retornando, os demais problemas e a corrupção sempre existiram na nossa sociedade, mas com o PT no poder ganhou muita força devido às políticas de assistencialismo (compra de votos) e companheirismo ideológico (cabide de empregos para parceiros ideológicos e militantes);

    – os problemas não serão resolvidos. Os políticos estão agora pensando em novas mentiras para amenizar a situação, mas logo tudo volta ao normal (pior), veja a conta de luz (que já aumentou);

    – assim como as crianças, os jovens e adultos, policiais e manifestantes, que usam de violência, possuem algo para expressar (pode ser falta de afeto e atenção na infância), isto é preciso ser visto como ago real, não só como “idiotas, bagunceiros, estúpidos…” são formas de protesto também. Uma pessoa saudável emocionalmente não quebra vitrines e não agride outras pessoas, pensem nisso.