likes

Enquanto isso, no Facebook…

“Minha vovozinha foi encontrar Jesus lá no céu. Muita saudade… – se sentindo triste ☹”
– 300 Curtir; 101 Comentários.

…Espera aí. Trezentas pessoas clicaram no botão Curtir?!

Segundo o dicionário Michaelis, curtir significa, como gíria, “desfrutar com grande prazer”. Na versão em inglês do Facebook, o mesmo botão é nomeado “Like” (gostar). Então por que cargas d’água uma pessoa iria desfrutar com grande prazer ou gostar da notícia que a avó de alguém faleceu? Porque a semântica na internet é outra. O curtir ou gostar, no novo contexto, serve pra qualquer situação, desde ganhar na loteria até ter um braço amputado. É o botão da empatia, do respaldo social, do tapinha nas costas.

Buscar esta validação social se tornou missão de vida para alguns. Tanto que é cada vez mais comum gente que se revolta quando não curtem o status dela. “Por favor, se for compartilhar o post, clica em Curtir também! Não custa nada!”, bradam aos incautos que cometeram a indelicadeza (para não dizer desrespeito) de passar por aquela frase apócrifa do Arnaldo Jabor e não deixar um polegar levantado, liberando um pouco de dopamina para o dono do post.

Mas este comportamento, é claro, não se limita à rede social azul criada por Mark Zuckerberg. Cada plataforma tem sua própria cultura. Umas com o mesmo peculiar uso da palavra “Curtir” e outras não, mas todas com manifestações da busca insaciável por atenção, por mais um número no contador do último post. Exemplo é aquele “RT e Fav se você curtiu!” no Twitter ou as milhares de hashtags naquela sua selfie no Instagram, entre elas a “#TagsForLikes”. Como se as outras não fossem.

10983241_822015634556062_2178593230109458752_nHá uma discussão enorme sobre privacidade, mas poucos param para refletir sobre o que ela significa. Ou se a preservam. Às vezes, as pessoas abrem mão da discrição até de momentos mais particulares, como a vida sexual ou mesmo a morte de um parente, em nome da aceitação que nos faz sentir importantes ou mesmo apenas notados pelos outros. Compartilhamos esperando alguma empatia, alguma admiração. É como um Ensaio Sobre a Cegueira às avessas, onde todos veem até demais.

E todos somos vítimas deste mal, seja em um nível maior ou menor. Mas não pense que se você está fora do Facebook e raramente posta na internet ficou imune a isso. A tecnologia apenas escancara uma faceta fundamental e bem conhecida da natureza humana, que é a necessidade de aceitação, de se encaixar em um grupo, de querer ser popular. Somos seres sociais e rede social é algo muito mais antigo que a web.

Mesmo ao estufar o peito para falar “saia do celular e vá aproveitar o mundo real”, você está mendigando a sua dose de validação e de “curtir” das pessoas que o cercam. Você quer ser o legal da roda e isso é normal. Lá atrás, Shakespeare difundiu e, mais recentemente, a banda canadense Rush reforçou: o mundo inteiro é um palco e nós somos meros intérpretes. Um é audiência do outro, rogando por aplausos ou, no mínimo, um joinha.