A montanha dos sete abutres

Ace in the Hole - Social & MídiaJornalismo não é uma profissão que se aprende somente nas salas de aula. A evolução no ramo requer obrigatoriamente a vivência, a observação e a análise. Acompanhar o dia-a-dia da notícia é primordial e certos casos em particular mostram como a atuação da imprensa pode ser brilhante ou destrutiva.

O cinema nos trouxe produções que se tornaram verdadeiras obras-primas sobre o jornalismo,  ilustrando a rotina, conflitos éticos e mesmo a falta de ética. E é nesta falta de ética e dos males que ela pode causar que se sustenta o filme A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole/The Big Carnival), de 1951, estrelado por Kirk Douglas e com direção de Billy Wilder, que mostra como a imprensa pode ser irresponsável e chegar de fato a destruir a vida de uma pessoa.

Douglas interpreta o jornalista Charles “Chuck” Tatum, um profissional experiente que já passou por diversos jornais, mas por más condutas pessoais é despedido de todos eles. Tatum acaba indo para um pequena cidade e consegue emprego no modesto jornal local, esperando ficar pouco tempo até conseguir uma grande matéria que o destaque novamente. Passa-se um ano e ele ainda está no mesmo jornal, totalmente frustrado pela vida pacata do interior. É quando ao sair para cobertura de um evento sem importância ele encontra a oportunidade de auto-promoção que tanto aguardava.

Leo Minosa (Richard Benedict) procurava artefatos indígenas na caverna de uma montanha conhecida como A Montanha dos Sete Abutres, tida como amaldiçoada, quando ficou preso em um desabamento. Tatum vê aí um grande trunfo, veiculando a história de modo dramático e sensacionalista. Minosa poderia ter sido retirado da caverna rapidamente, mas o personagem de Kirk Douglas consegue fazer com que o resgate seja realizado do modo mais difícil e demorado.

Tatum brinca, manipula e faz pactos com autoridades e até mesmo com a esposa indiferente do pobre Minosa, que vê a condição do marido como uma forma de lucrar em seu restaurante. Como em muitos casos que geram comoção, a irresponsabilidade de Tatum faz com que um número gigantesco de curiosos se instale próximo à montanha, transformado o local e o calvário de um homem imóvel embaixo de escombros em uma grande atração com direito a roda-gigante. Mas o repórter pagará caro por sua ganância.

A atuação mesquinha e desumana da imprensa representada no filme não é pura ficção. Muitos casos conhecidos levaram seus protagonistas, massacrados pela imprensa das mais diversas formas, a uma vida arruinada. A Montanha dos Sete Abrutes é um filme brilhantemente executado, com um bom elenco, que foi produzido sem preocupação com a repercussão que geraria, tanto que foi duramente atacado pela crítica e foi pífio em bilheteria. Para jornalistas e amantes do bom cinema, no entanto, o longa-metragem é obrigatório, crítico e contestador.

 Trailer: