Democracia Digital: O cidadão brasileiro 2.0 e seu potencial político

Democracia Digital - Social & Mídia

O texto abaixo, que fala um pouco sobre democracia e mobilização social na internet, foi escrito originalmente por mim como conteúdo na Gabriel Rossi Consultoria. Mantenho a idéia principal: Temos um grande potencial de mobilização e as ferramentas para isso, mas ainda falta uma cultura forte para que algo realmente aconteça.

As mídias sociais como um modo de comunicação entre grupos e organização é uma realidade evidente, tanto para o bem quanto para o mal. É só observar as revoltas que ocorreram em Londres, as constante ameaças hackers, o Oriente Médio… Exemplos não faltam.

O cidadão brasileiro 2.0 e seu potencial na política

A democracia aberta, impulsionada pela internet, está próxima de acontecer no Brasil? Não somos um povo exatamente politizado. Uma conjuntura histórica que inclui carência de educação, de acesso à tecnologia e banda larga, o voto obrigatório além da própria cultura social e política nacional influem no perfil do cidadão/eleitor. Entretanto, as mudanças na pirâmide social com o um maior poder aquisitivo da classe média e o acesso cada vez mais fácil a informação tendem a, em um longo prazo, influenciar neste cenário. É cedo para afirmar uma mudança, mas há algo interessante em andamento.

O dia 7 de setembro de 2011 marcou de forma clara o início de algo que já era sinalizado. Ao mesmo tempo em que se comemorava a consolidação do Brasil como uma nação independente, um grande número de cidadãos, predominantemente jovens, saíram às ruas para manifestarem-se na chamada Marcha Contra a Corrupção, movimentação organizada via Facebook. Diversas cidades tiveram protestos. Inclusive Brasília, que reuniu uma marcha com cerca de 25 mil pessoas, segundo a imprensa.

Marcha Contra a Corrupção - Social & Mídia

Movimentos deste tipo, organizados na internet, não são exatamente novos. O feriado em questão, entretanto, apontou uma proporção nova, que surpreendeu expectativas. Levanta dúvidas e sinaliza obstáculos: Estas manifestações ainda carecem de foco mais definido de linhas de ação que vão além do protesto pontual e influenciem de forma mais efetiva no processo democrático.

Potencial para uma movimentação coordenada existe. Já são notórios sites e comunidades com o intuito de fiscalizar a gestão pública e oferecer informações de modo mais acessível ao cidadão comum, como o Adote Um Vereador. Há, agora, que expandir e fortalecer estes recursos, utilizar o potencial de comunicação em poder de todos para difundir conhecimento, procedimentos e modos de praticar cidadania.

Existe um novo paradigma para os grupos de pressão, que gradativamente amadurecem e compreendem as ferramentas para dar voz às suas causas. Países que fazem parte da chamada “Primavera Árabe” como a Líbia demonstram que a tecnologia, utilizada por pessoas realmente motivadas, é um instrumento poderosíssimo de mudança.

Claro, a situação no Oriente é completamente diferente e a deposição de um sistema totalitário em si não garante uma imediata melhoria para a sociedade libanesa. Há que levar em conta questões de longo prazo e características culturais arraigadas, mas este movimento indica que nada mais será como antes. Se é possível tamanha comoção em um país reprimido por um regime repressor, imagine em um democrático, com muito mais liberdade.

Os hackers e o Wikileaks também já apontam outra faceta de um mundo 2.0, em que a informação não é mais privada, que não é possível fazer gestão pública da mesma maneira. O fator mais importante neste quesito, muito a frente da simples existência de mídias como o Twitter e o Facebook, é o comportamento social, a motivação das comunidades e indivíduos em favor de uma causa específica e concreta.

Políticos que enxergam a internet como uma mera caixa de ferramentas para ser utilizada em promoções baratas e apenas em período de eleições têm muito a perder. Eles não entenderam o real significado do que está acontecendo. A relação entre marcas corporativas e os consumidores já não é mais vertical e logo isto também tende a se estender à política. Lideranças realmente diferenciadas tendem a despontar através do relacionamento, entendimento das necessidades dos eleitores e construção da sua marca pessoal em alicerces de credibilidade. O mundo evolui e a tecnologia também. Para a política, mesmo relutante, não há como ficar parada no tempo. E, no Brasil, há muito a se fazer.